Coluna

CANAL LOMBAR ESTREITO. E QUANDO AS PERNAS COMEÇAM A FALHAR ?

9 de Janeiro de 2020


Uma queixa frequente na população mais idosa é a falta de força nas pernas e a dificuldade em caminhar, associada a dor e desconforto nas pernas. Muitas vezes aceite como resultado normal do envelhecimento, esta dificuldade pode estar relacionada com o Canal Lombar Estreito.

O Canal Lombar Estreito, também conhecido como Estenose Lombar, afecta uma larga proporção da população idosa Portuguesa. Tal como o nome indica, define-se como o estreitamento (ou aperto) do canal vertebral na Coluna Lombar. Apesar de poder estar presente desde o nascimento, mais frequentemente é adquirida, estando relacionada com o envelhecimento e com as alterações degenerativas (de desgaste) que ocorrem na Coluna, em todas as pessoas, com o passar dos anos. Estas alterações de desgaste na Coluna Lombar ocorrem a um ritmo diferente de pessoa para pessoa, e é também diferente a forma como se manifesta em cada individuo. Muitas vezes está presente, sem causar manifestações clínicas (assintomática). Quando se torna sintomática, é importante perceber estas alterações, para melhor direcionar o tratamento e oferecer aos doentes a perspectiva de melhor qualidade de vida e melhor capacidade funcional.

O que é? Como se manifesta?

Com o envelhecimento, o desgaste ao nível dos discos, dos ligamentos e das articulações posteriores da Coluna Lombar provoca uma diminuição do espaço dentro do Canal Vertebral. Ao ocorrer este aperto, as raízes nervosas (nervos) que passam dentro do canal vertebral e que controlam a sensibilidade e força dos membros inferiores, entram em sofrimento, deixando de funcionar em pleno, deixando de “comandar” os músculos das pernas. Os nervos que controlam a bexiga e o intestino também podem estar comprometidos, podendo causar alterações urinarias e/ou intestinais. O evento inicial relaciona-se com o desgaste do Disco Intervertebral que tem uma função de amortecedor e absorção das forças exercidas na Coluna. Ao falhar, desperta uma sequência de eventos na tentativa de “compensar” o equilíbrio perdido. A hipertrofia ligamentar e a hipertrofia das articulações posteriores da Coluna, surgindo como uma tentativa de estabilização do segmento lombar, acaba por ser contraproducente e agravar ainda mais o aperto dentro do Canal Vertebral.

Existem vários tipos de Estenose (aperto) do Canal Lombar, variando as manifestações clinicas de acordo com a localização do aperto. Quando é mais central, a manifestação clinica mais usual é a Claudicação Neurogénica, isto é, o doente começa a sentir dificuldade ao andar, quer por sentir dor nas pernas, quer por sentir falta de força. Começa a fazer varias paragens para cumprir o mesmo percurso, e só depois de fazer  várias pausas, consegue retomar a marcha e voltar a andar. No extremo do quadro clinico, como referido antes, um aperto grande na coluna pode provocar também disfunção dos nervos que controlam a função urinária e intestinal, sendo que o doente pode começar a ter dificuldades em controlar a urina e as fezes pois o controlo esfincteriano está também comprometido. Quando o aperto é mais lateral, as queixas dependem do nervo apertado, mas tipicamente pode manifestar-se como ciatalgia (dor ciática), podendo estar associada a sinais neurológicos como dormência, formigueiro e falta de força.


Avaliação Clínica e Estratégias de Tratamento

Na presença destes sintomas é aconselhável uma avaliação médica. Uma avaliação clínica minuciosa associada a um exame físico rigoroso permitirá distinguir as situações mais graves, que geralmente estão associadas a sinais neurológicos e a grande limitação funcional. Os exames auxiliares de diagnóstico também têm um papel importante, permitindo confirmar as suspeitas clínicas. A Ressonância Magnética tem um papel de destaque neste processo.

O recurso a medicação, bem como à fisioterapia e a outras técnicas conservadoras poderá ajudar a controlar os sintomas.

A persistência das queixas, a presença de défices neurológicos e uma perturbação grave da marcha com severa limitação funcional poderão levar à necessidade de intervenção cirúrgica. Sendo uma decisão importante, é muitas vezes a última e derradeira solução para devolver ao doente a sua qualidade de vida e a recuperação da sua capacidade funcional.

Existem várias técnicas cirúrgicas, incluindo as mini-invasivas, que serão selecionadas de acordo com a especificidade e particularidade de cada doente.

Artigo redigido  pelo Dr Paulo Araújo